Memórias Vilmar Oliveira Minha casa morreu, afogada com água até a cabeça. Tinha um sofá que eu adorava sentar, um banquinho para eu ver o sol nascer. Meu quarto morreu. Afogou com água até o pescoço. Tinha uma cama que eu descansava o meu corpo após o trabalho de pedreiro. Misturo água com cimento o dia todo, quase lama, sabe? Minha cozinha morreu, igual eu mato uma galinha para comer, mas minha cozinha morreu afogada, diferente da galinha e, ó pior é que ninguém comeu minha cozinha, aliás, a lama comeu. Na sala, perto do sofá, tinha uma pequena coleção de tampinhas, ninguém dava valor. No meu quarto tinha umas fotos dos meus netos, só tinha importâncias para mim, meus netos, né? Na minha cozinha tinha uns temperos, umas panelas que ganhei da minha mãe, e, umas receitas que trago de geração, talvez dos meus bisavós, e olha que já sou velho. Perdi o esquecimento. O que eu perdi mesmo?...